quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Luis Buñuel: libertinagem à alma - Parte 4 (Ensaio de um Crime)

 

Alguns personagens dos filmes de Luis Buñuel conseguem sozinhos sintetizar seu estilo, assim como os meios utilizados para chegar à comédia e ao drama. Dessa mistura, ou seja, da fusão entre os medos que, em certos casos, parecem diabólicos com o divertimento do cineasta em fazer seus personagens impotentes, nasce Archibaldo de La Cruz (Ernesto Alonso). Rico, belo e com manias típicas de sua classe, ele é a presa e o caçador ao mesmo tempo, o tipo predileto de Buñuel, um impotente quando se trata de atingir o prazer máximo. A história, sobre uma criança mimada e obcecada por uma caixa de música, tem tanto do diretor que é impossível pensar em outro cineasta fazendo esse trabalho. E parece premeditada a afirmação que Buñuel sempre buscara os mesmo tipos, assim como a mesma história, em todos os seus filmes – ou, pelo menos, os mais conhecidos. Junto com Ensaio de um Crime, dessa época se destacam Os Esquecidos e O Alucinado. Próximo do último citado, Ensaio mostra um homem vítima da frustração, pois está impossibilidade de consumar crimes devido ao simples fato de sempre surgir algo em seu caminho – ou alguém mais forte para fazê-lo. No caso de O Alucinado, o personagem vê-se impossibilitado de liberar seus desejos internos, e a prisão converte-se no desejo de morte, de colocar fim na parceira que faz surgir nele momentos de pura demência.

São filmes que estabelecem um diálogo. Em suma, falam como o sexo e a morte são panos de fundo para as instituições paradigmáticas, chamadas de civilizadas e sempre com a benção protetora da Igreja. Archibaldo aprendera desde cedo que podia fazer o que bem entendesse. Foi instruído, na cena inicial, por sua criada a acreditar numa caixa de música, pois a mesmo, segundo ela, continha um gênio dentro. Este sabe de tudo e é capaz de realizar todos os desejos do pequeno Archi. Logo, uma bala perdida da revolução que ocorre nas ruas mata a criada e o personagem, ainda criança, acha que foi o responsável pela morte. Essa é talvez a melhor seqüência do filme, que Buñuel entrega logo no início. A mulher está atirada ao chão; escorre sangue de seu pescoço, ao passo que o público não consegue se mexer ao ver a criança em pleno deleite. Pouco antes, Archibaldo foi encontrado em um armário vestindo as roupas de sua mãe; teve de tirar as peças e recebera alguma bronca pelo fato. O assassino em potencial sempre estivera, ao que parece, distante de suas vontades, de fazer simplesmente o que quiser. Isso muda quando passa à maturidade. A narrativa utilizada por Buñuel é rápida e inteligente. A história da infância é narrada a uma freira, que logo perde a vida em um acidente. Archibaldo assume a culpa, já que a perseguia com uma navalha antes do acidente que culminou em sua morte, caída no poço do elevador. Ao confessar seu crime, tem início a história de seu reencontro com a caixa de música, em um antiquário, e seu breve destino que cruza a vida de outras mulheres..

A primeira delas é a descontrolada Patricia (Rita Macedo), uma bela loura que troca olhares com Archibaldo em uma das cenas provocantes do filme, quando mostra suas pernas antes de entrar em um carro. Ao lado de um suposto cafetão, a moça é domada por um homem e quase reconhece isso, ao contrário de seu amor pelo mesmo. Quando o protagonista está próximo de matá-la e de realizar seu desejo, uma vontade acima do gozo sexual, o velho homem, Willy Corduran (José María Linares-Rivas), aparece na casa. Logo, Archibaldo percebe que fracassou em sua tentativa. O destino, nesse caso, é a ação de Buñuel em colocar sempre alguns obstáculos no caminho do homem burguês em busca de algum prazer de verdade. A caixa de música surge como um estopim à sua vontade, como se remontasse o passado, a imagem da mãe e de dias felizes antes de sua casa ser atingida pela ação dos revolucionários. Outras duas mulheres, no decorrer da trama, serão ainda mais importantes a ele e, sobretudo, demonstram diferenças apenas na aparência. Com Carlota Cervantes (Ariadna Welter), Archibaldo acredita ter encontrado sua paz interior. Sempre junto à mãe, a moça aspira bondade e pureza cristã, aquilo que o protagonista acredita estar em falta em sua vida. Talvez ele quisesse estar ao lado da mãe, no futuro, ou, como um Norman Bates em potencial, desejasse ser sua mãe e lembrar-se de como era bem tratado por ela. O mundo infantil e as ilusões sobre a bondade estão quase chegando ao fim para ele; a única esperança, assim, é sinalizada em Carlota.

Por mais triste – e real – que possa parecer, ela também é movida pelos desejos do mundo, do sexo e não consegue mandar em suas ações enquanto o sistema em que vive tenta deter suas vontades. O coração da moça pertence ao arquiteto Alejandro Rivas (Rodolfo Landa), e Archibaldo sabe disso. No entanto, o protagonista consegue convencer Carlota a se casar com ele. Quer, na verdade, matar a mulher na noite de núpcias – e Buñuel chega a mostrar seu prazer interno, ao imaginar a mulher rezando para ele antes de ser morta com um tiro. Na realidade, ela será realmente morta por um tiro, mas este, para o desprazer de Archibaldo, sai da arma do arquiteto. Na festa de casamento figuram os tipos freqüentes mostrados outras vezes pelo cineasta. Os representes da Igreja, do Estado e do Exército estão sentados juntos, lado a lado, felizes – mal sabem eles – pela educação que se vê em algumas pessoas de bom coração, sob as instituições como as que representam. São pessoas como Archibaldo, cujo desejo de assassinar sua nada santa e futura mulher é castrado. Portanto, na mistura do desejo do homem com sua impossibilidade, estipula-se os limites entre o sonho e a realidade, como se veria depois em filmes lineares do cineasta, como A Bela da Tarde. Nesse caso, o desejo é consumado, num prostíbulo de luxo, e por uma mulher que não agüenta sua "vida comum". São desejos verdadeiros, mesmo que os filmes – principalmente Ensaio de um Crime – pareçam comédias contra o coração do sistema. E vale lembrar que em A Bela da Tarde um dos clientes da protagonista era justamente um homem chinês que carregava um caixa de música. De dentro dela, ou a partir de sua música, esvaia seu desejo?

A terceira personagem de Ensaio, de longe a mais interessante, é a bela e sensual Lavínia (Miroslava Stern). Trabalha como modelo e leva estrangeiros para conhecer pontos turísticos e culturais do México. Ao ir atrás da moça, Archibaldo acaba encontrando uma réplica da mesma, um manequim baseado nas curvas e na imagem da mulher. Esperto, o protagonista persegue as pistas deixadas por ela e consegue encontrar sua próxima, e suposta, vítima. Dentro de sua mansão, ambos se divertem enquanto ele pede que a mesma coloque algumas roupas (seriam de sua mãe?) e chega, em um momento que beira o absurdo, a beijar a boneca de Lavínia e não a verdadeira. Como nos outros casos, algo impede Archibaldo de cometer seu crime e de sentir, enfim, prazer intenso. A mulher, mesmo que isso possa parecer um absurdo – se tratando das amostras e buscas de Buñuel certamente não é –, convidou alguns estrangeiros para conhecer o trabalho em cerâmica feito pelo personagem. Mais uma vez ele desespera-se por não conseguir matar uma mulher e, para não se sentir ainda mais vazio, decide queimar a boneca no incinerador. Trata-se de uma seqüência maravilhosa, em que Buñuel brinca com a visão de Archibaldo quando mostra a mulher de verdade deitada e sendo levada para dentro da máquina. Do lado de fora, enquanto a boneca é transformada em cinzas, vê-se o rosto do personagem, em pleno prazer.

Os personagens dos filmes de Buñuel de sua fase mexicana – ou apenas os melhores e mais lembrados – estão em pleno contato com alguns personagens de Alfred Hitchcock. Archibaldo, de certa forma, já havia sido mostrado em Pacto Sinistro e retorna, de maneira clara e ainda mais doentia, em Psicose. A diferença está na condução das histórias e no próprio estilo de cada diretor. (Por isso, não assusta observar que Pauline Kael chamou tanto Pacto Sinistro quanto Ensaio de um Crime de "comédia".) Se para Hitchcock os meios devem levar a uma história séria, em que ora ou outra um crime será concretizado – ao mesmo tempo os personagens "parecem" mais livres e, portanto, "menos" manipulados –, em Buñuel o reverso deságua justamente em uma assumida diversão. Sua comédia, assim, é diferente e não tornam distantes o suspense e a tensão, sempre presentes. Mais tarde, em Psicopata Americano, há novamente a abordagem dos desejos de morte pela esfera burguesa quando nada mais pode proporcionar prazer. Mimado e tomado pela idéia de que pode fazer o que quiser – enquanto Buñuel ratifica isso brilhantemente, ao passo que sua confissão não serve para nada –, Archibaldo é o atípico assassino, segundo as instituições poderosas que o cercam. E o encerramento, no qual aparece feliz (bom demais para um filme do tipo), pode estar longe de uma imposição dos produtores. Há ironia maior ao assassino que sua vontade de viver, à qual está pronto para, ao menos, tentar servir?




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4 comentários:

Kami Ayres. disse...

*-*


Obrigada pela visita!

HNETO disse...

"... porque vi Simão no Deserto".

BLOG DO PROFEX disse...

Rafa, excelente blog. Textos generosos e concisos. Deixo votos de um 2011 de muita inspiração.

MatHeuS MatHeuS disse...

"...porque vi Simão no Deserto". [2]