terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Luis Buñuel: libertinagem à alma - Parte 3 (A Ilusão Viaja de Trem)

 

Há uma aparente aproximação entre as imagens de Luis Buñuel e as de Jean Renoir, dos filmes do mestre francês realizados na década de 1930. Isso fica ainda mais evidente quando são analisados os planos gerais, o movimento dos personagens e algumas situações que não revelam a comédia por inteiro – sem os gags usuais do cinema americano – e que aproximam heróis e vilões, fazendo com que inexistam tais classificações. Essas características estão presentes em um dos filmes menores de Buñuel, A Ilusão Viaja de Trem, sobre dois empregados de uma empresa de transporte público que decidem passar uma noite a bordo de um bonde preste a ser desativado. Muito se questiona sobre o motivo do cineasta espanhol ter realizado esse filme. Na aparência, trata-se de uma história simplista com a possibilidade de invadir a vida comum do país latino naquela época, sua pobreza e os problemas econômicos. Assim, volta-se às críticas sociais presentes nos trabalhos do diretor, sobretudo em Os Esquecidos, cujo início é semelhante com o de A Ilusão Viaja de Trem. Um narrador apresenta o local – a Cidade do México – e fica claro que as coisas não andam muito bem nessa metrópole. Se antes, no longa de 1950, interessa a marginalização e a pobreza, dessa vez são as pessoas simples e exploradas que estão em paralelo com as grandes companhias, governos e empresas, responsáveis por parte dos problemas e da fome. Mas há ainda a possibilidade dessa última viagem, dos companheiros Caireles (Carlos Navarro) e Tarrajas (Fernando Soto), ser uma alusão ao próprio sonho, temática presente em abundância na carreira do diretor.

Essa viagem, regada a bebidas alcoólicas e a encontros com pessoas de naturezas e classes sociais diferentes, desperta o material para um patamar, no mínimo, interessante. Está clara a observação do mestre à comédia episódica, em constante modificação ao passo que mais personagens vão aparecendo. Mais uma vez o público está próximo do estilo de Renoir. Em 1938, o francês havia realizado um grande filme sobre maquinistas como uma metáfora da vida, da impossibilidade de fugir dos trilhos que levam aos mesmos lugares. Sair dessa linha, segundo a leitura, significa enlouquecer. O tom de Buñuel, por outro lado, está ligado à comédia. Os personagens trabalham muito; à noite, são atores em apresentações populares e não se despregam do amor ao trabalho. É por isso que decidem retirar o bonde 133 da garagem, em plena madrugada, e servir transporte gratuito a uma população aflita por melhores condições de vida. Uma seqüência mostra uma estrangeira alterada quando Tarrajas diz-lhe que não precisa pagar para percorrer determinado trajeto. Segundo ela, aquela era uma atitude "comunista". Ao que parece, interessa mais a Buñuel uma crítica aos pequenos problemas comuns, e não diretamente ao coração do sistema. São com algumas pequenas amostras que ele extrai grandes representações – e foi isso o que fez em sua obra-prima, Os Esquecidos, alguns anos antes. De volta à obra de Renoir, A Besta Humana, vale lembrar que nesse filme o personagem convivia com sua loucura, até o ponto em que não conseguiu escapar e foi "engolido" por ela. Em O Alucinado, filme anterior de Buñuel, surge em cena também um personagem que não consegue domar seus medos. Vaga pela noite e pensa em matar sua companheira.

A Ilusão Viaja de Trem poderia ter sido realizado por Renoir, pois reúne algumas características que serviram perfeitamente à sua composição. Se fosse um pouco mais longo, poderia expor melhor seu mosaico. Personagens de aparente importância aparecem pouco, como o velho homem que tenta entender os motivos da inflação, a professora que leva seus alunos a um passeio e o grupo de burgueses. A crítica de Buñuel é dirigida não aos costumes de classes, mas ao sistema que dificulta o acesso da população a alguns itens básicos à sobrevivência. O transporte, em uma metrópole, é um deles. Como observou Luiz Carlos Merten, em um ensaio sobre o diretor, não se pretende, em sua obra, atacar o capitalismo, mas sim a burguesia e seus costumes. E ninguém fez isso melhor do que ele, principalmente na fase que tem início nos anos 1960. Na época em que esteve no México, interessava mais construir histórias sobre pessoas comuns e defeitos humanos extremos, ao mesmo tempo em que a religião e a riqueza nada podiam fazer para salvar alguns personagens. Buñuel, quanto mais próximo de seus personagens em relação ao amor e ao caráter, mais longínquo está de sua crítica. Por isso que A Ilusão surge como um filme mediano. Ao que parece, o cineasta está envolvido com os dois homens a bordo do bonde, assim como com a irmã de um deles. Parece amá-los o suficiente para fazer a história parecer um bom sonho, de aventuras, e nunca um pesadelo. As linhas que o bonde percorre são como labirintos internos, capazes de fazer as pessoas andarem mentalmente e nunca encontrarem o caminho de volta. Ao fim, não assusta, qualquer seqüência sobre a chegada do veículo inexiste. É como se ele nunca tivesse saído do local.

Outro fator que chama a atenção é a seqüência do teatro. Em cena, Caireles e Tarrajas são dois dos atores que compõem o elenco. A peça é sobre a origem do mal no universo, com Lúcifer sendo enviado às trevas, e sobre o pecado original. Não há muito argumento sobre a aproximação dessa representação dentro de outra à própria historia, mais importante, sobre a fuga dos homens enquanto encenavam a peça para irem ao encontro do bonde. Se essa fuga é uma explicação, com a paralisação do show, então certamente a "ilusão" do título à qual o filme deixa em branco esteja, sim, ligada ao sonho. A viajem realmente existiu? Ou é fruto do pensamento do velho homem (Agustín Isunza) inclinado a delatar os jovens funcionários da empresa de transporte? Como em Renoir, as demonstrações podem trazer diferentes significados àqueles que assistem. Longe de ser grande, A Ilusão é um daqueles filmes que, mesmo visualmente, não parece ter sido realizado por um mestre como Buñuel. Mesmo em A Filha do Engano, uma comédia anterior, havia mais linearidade à trama, como amostras claras de suas intenções. Aqui o que resta é a amargura de um filme sem qualquer destino, mas sobre um caminho, uma aventura pouco empolgante e com personagens cujas tensões podem estar ligadas apenas a um sonho. É um trabalho menor de alguém ligado à imaginação. Em um filme sobre pobreza, o melhor, ao que parece, é sonhar e esquecer as ruas sujas e becos da Cidade do México.



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1 comentários:

Alaor Pedroso Netto disse...

Interessante, parabens pelo blog!