A moradia do personagem principal de O Alucinado, Francisco Galván (Arturo de Córdova), pela lente do fotógrafo Gabriel Figueroa, lembra alguns ambientes reproduzidos por Hitchcock na década anterior, especialmente em Suspeita e Interlúdio. Luis Buñuel resgata essa penumbra de luxo onde vivem burgueses como Francisco. É o local em que uma mulher será aprisionada, culpada, na essência, por ser mulher, por fazer surgir em seu parceiro os desejos mais obscuros que ele, por muito tempo, percebeu estar impossibilitado de domar. Mais uma vez, o cineasta espanhol lida com a castração gerada pelas instituições superiores – notadamente a igreja – e como as pessoas lidam com a loucura ao mesmo tempo em que parecem completamente equilibradas. Para Buñuel, ninguém é equilibrado o suficiente para, ora ou outra, impedir que algumas coisas sejam colocadas para fora. Tornou-se normal, em uma sociedade que aprendeu a lidar com o sexo e seus efeitos colaterais, imaginar homens raivosos de ciúmes e mulheres aprisionadas. Aqui, diferente de Hitchcock, a busca pelos fins está ligada à fragilidade interna das pessoas e menos ao suspense (ainda que, na verdade, sejam todas obras próximas). E há, sobretudo, um modo de vida aristocrático, da burguesia que, como a máfia ou o Estado, inclina-se à igreja e suas maneiras ainda mais fortes de domesticar o animal vivo dentro de homens como Francisco. Ao tentar aprisionar sua esposa, Glória (Delia Garcés), ele mostra-se ainda mais aprisionado.
Baseado na obra de Mercedes Pinto, O Alucinado é um dos grandes filmes do mestre espanhol em sua fase mexicana, nos anos 1950, junto com Os Esquecidos, sobre marginais de rua que são aprisionados pelo Estado para receberam "correção". Não tão distante, o aprisionamento final de Francisco, seu "corretivo", vem por meio do totalitarismo disfarçado de bondade aos fracos de espírito; na verdade, o protagonista fora apenas aprisionado de forma física, pois sua própria alma já pertencia à instituição que delimita espaços para ele mover-se. O tom adotado por Buñuel é menos sério que em Os Esquecidos, talvez porque aqui sejam mais evidentes os efeitos do condicionamento religioso àqueles que procuram um respaldo superior para viverem em segurança. Talvez o dinheiro não seja suficiente para manter o equilíbrio de homens como Francisco. Portanto, Buñuel mais uma vez despe os personagens que odeia adorar, as vítimas de um mundo de regras que cria fetiches às quatro paredes, impossíveis de serem exteriorizados. A abertura dá o tom: Francisco assiste a uma celebração religiosa. O padre Velasco (Carlos Martínez Baena) lava e beija os pés de algumas pessoas presentes. Francisco assiste enquanto a câmera, como seus olhos, passeia entre os pés calçados das pessoas presentes à missa. No encontro com um que lhe chama a atenção, não resiste a desejar a dama que a câmera, em um sutil movimento, revela. De início, parece uma paixão arrebatadora – e é. Francisco passa a perseguir Gloria, e ela entende o recado e dá sua resposta, igualmente tomada pelo desejo. A história de amor logo passa à obsessão; a narrativa é rápida, oportuna, e, em corte no tempo, logo ela está contando o desastroso relacionamento a ninguém menos que seu antigo par amoroso, o engenheiro Raúl Conde (Luis Beristáin).
Francisco, tomado pela loucura, transforma seus desejos naquilo que imagina presente nos outros, ou seja, a vontade de tomar a mulher nos braços e desejá-la mesmo em meio a um sentimento de proibição. Como um burguês domesticado, segundo Buñuel, ele não pode ultrapassar essa barreira. E, de forma inevitável, enlouquece aos poucos. Como o grupo de ricos que se reúne para celebrar um jantar e depois não consegue sair das dependências de uma mansão, em O Anjo Exterminador, o protagonista de O Alucinado apodrece aos poucos. Numa seqüência inesperada, pede que sua esposa dance com um advogado ocupado com os casos relacionados a algumas de suas propriedades. Inconformado com a atitude de sua esposa, assim como o que é possível ver na reação de desaprovação do padre e da própria sogra, só lhe resta questionar ainda mais a cansada Gloria. O suspiro de feminilidade, da liberdade gerada justamente na dança com outro parceiro, dura pouco. É como se uma cena se repetisse. Aquilo que ele fizera antes não seria mais aceito, pois agora é seu instinto de macho que está em jogo. O êxtase e a felicidade de ser assistido e desejado, com sua esposa convertida a troféu, fazem lembrar a seqüência de O Discreto Charme da Burguesia em que, em uma tentativa de concretizar um jantar, as cortinas são abertas e os burgueses, como nus, são assistidos por uma platéia. Vale lembrar também do santo homem de Simão do Deserto, média-metragem de Buñuel, em que o protagonista fica anos sobre uma estátua, enquanto os homens, crentes, assistem-no em sua empreitada de fé. Juntamente, como não poderia faltar, há o diabo, na forma da bela Silvia Pinal.
Só mesmo Buñuel para demonstrar os medos dessa classe de forma tão crítica e satírica – medos que, por tanta domesticação, levam à loucura. Incrível mesmo é que, mesmo enquanto parecem distintos quanto ao tema, os longas de Buñuel sempre mantêm uma linha que os conectam. Nem por isso não consegue se superar quanto à originalidade e ousadia. O diretor ficou ainda melhor com o tempo, em histórias que parecem se encontrar ao falar do aprisionamento do homem e as conseqüências disso quando se resolvem soltar as "feras". É o que acontece com Simão (Claudio Brook), impossibilitado de resistir às tentações e levado por um avião (!) ao berço do pecado em uma festa liberal típica dos anos 1960. Para Buñuel, em seu divertimento, o inferno é mais interessante e agradável. Lá, ele sugere, as pessoas podem fazer o que desejam. São livres – o contrário da opção de Francisco, um burguês impotente que busca o conselho de seu efeminado mordomo após noites em claro. Engraçado que, para a felicidade de Gloria, bastaria alguém aparentemente "normal", mas o texto sugere que a normalidade não é digna de um filme e sim do susto final, da busca pelo conformismo como saída às dores da carne causadas por relacionamentos desastrosos. Obviamente, a segurança de Gloria volta a ser o antigo companheiro; a de Francisco, a igreja, capaz de colocar seus "monstros" para dormir. A bela dama de pés desejáveis não imagina a sociedade como uma inimiga. Diferente de Francisco, quando diz ter a necessidade de pisar nas pessoas, do alto de uma igreja, como se fossem formigas. Ele é resultado de um processo iniciado por esse exército de "pequenos animais", longe de serem culpados e ainda mais longe de saírem ilesos quando o espectador é levado a pensar na total submissão daqueles que se curvaram diante de algumas instituições e foram moldados por elas. E desse molde saiu Francisco.
O que leva um homem a lidar com tantas figuras diferentes para ao fim gerar a estranheza de que está, sim, contando a mesma história? Ninguém dúvida da genialidade de Buñuel, responsável por traçar uma marca inconfundível. Ainda nos anos 1950, o cineasta contou a história – a sua história – de Robinson Crusoé. Contra a imundice humana responsável por levar o homem à maldade e a seus vícios, tem-se o homem como a representação do ser inicial (Adão), em uma terra desabitada e onde terá de construir a sua sociedade. Talvez essa amostra de liberdade individual interessasse a Buñuel, e não é difícil imaginar o motivo. Sem dúvida, Crusoé é, ao mesmo tempo, o primeiro, mas logo, ao regressar ao velho mundo, terá de enfrentar a sociedade criada pelos outros. A idealização e raiva dos pecadores não é uma característica desse personagem. Ao contrário de Francisco, que, pouco depois de contar à companheira sua vontade de aniquilação, típico de um ser opressor tentando se vingar da sociedade que o reprimiu e o obrigou a imaginar em outros homens seus próprios desejos, tenta jogá-la do campanário da igreja. A cena faz lembrar outro filme de Hitchcock, realizado poucos anos depois. As semelhanças dessa seqüência com os momentos finais de Um Corpo que Cai coloca a obra de ambos os mestres novamente em proximidade. O personagem de James Stewart, cheio de medos, quer moldar sua nova companheira, fazê-la semelhante à antiga amante – quando, na verdade, tratava-se da mesma pessoa. Em Esse Obscuro Objeto de Desejo, Buñuel altera as peças do jogo de desejo utilizadas por Hitchcock. Ao invés de um homem controlador, mostra um personagem lançado à desgraça por uma mulher; e, ao invés de uma mulher passando-se por duas, tem uma mesma personagem interpretada por duas atrizes diferentes.
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2 comentários:
bastante legal esse texto!!
=)
Embora eu só tenha assistido O Cão Andaluz, A Idade do Ouro, A Bela da Tarde, Viridiana e O Anjo Exterminador, seu texto é interessante em relação a obra do Buñuel, aquela autobiografia dele também é muita boa, "Meu Último Suspiro.
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