sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Luis Buñuel: libertinagem à alma – Parte 1 (A Filha do Engano)

 

Sem as cenas que definiram Luis Buñuel como um diretor à frente de seu tempo e com extrema coragem – como a navalha que corta o olho em Um Cão Andaluz e a "santa ceia" de Viridiana –, A Filha do Engano, de 1951, consegue atravessar o tempo como uma legitima obra do criador. Fantástico, às vezes um ilusionista descarado e crítico dos modos comuns da sociedade burguesa, Buñuel retrata aqui a necessária maldade e descrença em relação às boas maneiras de ser para conseguir conquistar alguns degraus na escala social, ganhar dinheiro e ter influência. Utiliza um personagem do meio comum, um tipo sonhador mexicano que descobre a traição de sua mulher com um amigo. Em poucos minutos, o texto transforma-o. O homem esperançoso no amanhã se torna um poço de maldade, alguém com coragem para abrir um bar com o nome de "O Inferno" e colocar alguns bonecos na porta do local e dentro representando o próprio diabo. Na verdade, o cineasta, que aqui parece não ter grandes pretensões além de fazer divertir, lança de forma literal o bom homem ao inferno, faz seus "leões" internos rugirem e transforma-o num novo homem – não exatamente um "super-homem", mas suficiente para divertir o público.

A Filha do Engano é um dos trabalhos pouco conhecidos do diretor, feito pouco depois da obra-prima Os Esquecidos, um dos filmes mais duros sobre a marginalização infantil. Buñuel não escondia seu fascínio pelos locais em que geralmente os considerados cristão e pudicos não freqüentavam; queria, assim, fundir certos modos de vida, em uma mistura maravilhosa. Sua pretensão não era atacar as instituições visivelmente fracas e domesticadas, mas sim fazer a diversão cumprir seu papel enquanto a crítica, naturalmente, fazia-se maior. Não é necessário forçá-la, ainda que alguns de seus grandes trabalhos da década de 1960 e 1970 pareçam engajados. No fundo, o diretor espanhol exilado no México nunca esqueceu que cinema é sinônimo de diversão; como ensinaram alguns mestres da comédia, é possível divertir e fazer pensar. A Filha do Engano, assim, passa à história como um trabalho cuja grandeza está nas pequenas coisas. Seu texto, mesmo que não pareça, fora trabalhado linha a linha, detalhe a detalhe. Como poucos, Buñuel tinha precisão sobre os efeitos dos detalhes. Se não tivesse o controle no papel, certamente o tinha em mente, pois aqui traça encontros e despedidas, passado e futuro, para mais tarde mostrar ao espectador que a reconciliação é apenas fruto da feitura assumida do cinema. Ninguém pode realmente acreditar no final, sobre a volta ao sono dos "leões" e o retorno à domesticação. O final feliz guarda sua crítica inteligente, ao gosto do diretor e segundo suas próprias razões de fazer do cinema as fusões das formas primárias desta arte – a diversão – e o que dela é possível extrair para fazer pensar – a crítica às besteiras da sociedade e da religião.

Depois de descobrir a traição da esposa, Quintín Guzmán (Fernando Soler) decide levar sua pequena filha embora e deixá-la aos cuidados de uma família pobre. Poderia tê-la entregado a um berço endinheirado, mas preferiu o caminho dos "bons" humildes, pois assim a pequena Martha (interpretada na maturidade por Alicia Caro) seria criada sob a luz da humildade dos camponeses. O que Guzmán não sabia é que o pai adotivo passou a bater na menina quando esta cresceu e que gastava parte do dinheiro dado por ele próprio em bebidas. Numa ótima opção de amostragem da passagem do tempo, Buñuel utiliza o escuro de um armário para revelar que os anos se passaram e que Martha tornou-se uma bela mulher. No entanto, está castrada e presa por causa de sua educação e pelo pai adotivo e opressor, que não esconde a condição da filha. Paralelamente, tem-se a trajetória do pai verdadeiro, que desistiu de ser um bom homem e abriu uma espécie de cabaré com show de mulheres e jogos. A maldade trouxe-lhe dinheiro e poder como nunca antes – e é claro que, na abertura, Buñuel não deixaria de mostrar como a vida em família com uma mulher má lhe fazia mal e como, sobretudo, tornou-se mais interessante depois de migrar ao lado negro. Nesses primeiros momentos, sua então esposa, Maria (Amparo Garrido), dá alguns conselhos ao marido sobre como é necessário fazer concessões e servir mesmo aos desonestos se for necessário para ganhar dinheiro. Em um pequeno apartamento, sem energia, vivem à luz de vê-las e com dificuldades típicas de muitos homens bons e honestos. A brincadeira de Buñuel é óbvia com a mudança de lado de Guzmán. Amansar as feras internas faz mal aos homens e, em um mundo cercado de maldades, apenas os tornam impotentes e submissos. O real fundo de verdade – diluído pela diversão – é que as instituições cristãs, segundo o cineasta, cumprem seus papéis de aprisionar e tornar as pessoas cada vez mais conformadas.

Depois de muitas situações interessantes, com reviravoltas e reencontros – além do já citado final em que é possível imaginar o sorriso de sarcasmo do diretor –, resta pensar em A Filha do Engano como um trabalho em que a simplicidade nunca é tão pequena quanto parece. Os detalhes, como a briga de pães e, depois, com a azeitona que o protagonista é obrigado a comer, parece ter algo de muito especial e oculto. Em seguida, rendido por algum momento, Guzmán confessa ter enxergado a morte. Os filmes de Buñuel são sofisticados e inteligentes mesmo enquanto parecem simplórios e apenas divertidos. Seu retrato do México é real, como uma terra interiorana, de pessoas simples e, como em vários pontos do globo, tentando ascender socialmente por meio das facilidades da vida do crime e do sonho com o sucesso. Personagem que mostra isso de maneira clara é a irmã de Martha, Jovita (Lily Aclemar), legítima de berço do homem que adotou a personagem feminina central. É visível o diferente tratamento dirigido a elas. Enquanto a filha de sangue pensa no sucesso como artista, talvez por viver em um mundo de sonhos, a outra se fortifica ao casar com Paco (Rubén Rojo). O encontro entre eles ocorre na estrada, quando o homem quase atropela Martha. Surge em cena com a aparência de um canastrão de filmes românticos, ou mesmo como um capanga de Guzmán; revela-se, para a surpresa, um jovem justo e o único capaz de dobrar a raiva do pai de sua esposa com o olhar – o que faz mesmo sem o velho saber que a moça é, na verdade, a filha que procura.

A obsessão de Guzmán quanto à filha começa quando sua mulher, anos após ele tê-la deixado, reaparece e pede que ele olhe pela garota fruto de um amor duvidoso do casal. A felicidade é logo interrompida quando a ótica brincalhona, praticamente uma concessão de Buñuel para que o público entenda que está em um filme, apodera-se da tela. (Ao fim, o próprio Guzmán olha para a lente da câmera e manda um recado ao espectador.) A melhor seqüência do filme, porém, dá-se quando um padre "vê-se" obrigado a entrar nas dependências de "O Inferno" para falar com o dono do local. Guzmán está concentrado em um jogo de cartas e, ao saber da visita do padre, pede para que um de seus homens, Angelito (Fernando Soto), olhe para que os dois oponentes não trapaceiem. O padre faz um pedido que o mafioso, devido à submissão até mesmo do bandidismo à igreja, não pode recusar. Maria, antes cínica e maldosa, é redimida à boa mulher em seu leito de morte. O encontro com Martha, então, passa a ser primordial para Guzmán. Seria também o caminho para que suas feras internas fossem colocadas para dormir, por um tempo longo ou não. O conflito, segundo Buñuel, não escapa ao homem – como a traição, a violência e, muitas vezes, os deslizes à bondade quando se pensa nas bases cristãs proporcionadas pela família. Melhor ainda é a imagem do padre, assustado ao ver algumas garotas dançando nos bastidores do cabaré, antes de falar com o protagonista. O destino, em outro caso – leia-se: nas mãos de outros cineastas –, certamente seria uma ferramenta de ajuste aos encontros ou tragédias dos personagens. Para o cineasta espanhol, é uma maneira de evidenciar suas brincadeiras e fluidez à comédia. Em um filme pouco conhecido de sua filmografia, mostra controle da narrativa e, mesmo nas seqüências aparentemente exageradas e sem tempero, não deixa de imprimir seu inconfundível estilo.



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2 comentários:

30 e poucos anos. disse...

Não sou muito de assistir filmes antigos mas a história me parece ser muito interessante...ótima dica

Cristiano Contreiras disse...

Bom post de reeconstrução da imagem de um importante cineasta.

Já viu o filme "Poucas cinzas"(little ashes)? aborda um pouco dele, do poeta Lorca e do pintor Salvador Dali.

abraço e apareça, anda sumido.