sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Como os antigos musicais (Um Violinista no Telhado, de Norman Jewison)

 

O pai de cinco filhas, ligado às crendices de seu povo, sobretudo à religião judaica, não esperava pelas mudanças no mundo do início do século XX na Rússia czarista. É com esse conflito cultural, da mistura de raças e improváveis amores, que Norman Jewison traça a história simples de pessoas que viviam no campo e que, repentinamente, teriam de migrar para estabelecer a tradição em outros locais e, assim, não perder o que com muito tempo conquistaram. Um Violinista no Telhado, portanto, tem uma alegoria ao fundo, ligada à imagem do próprio violinista suspenso no alto de uma casa, tendo de executar sua música em pleno equilíbrio. Nessa imagem reside o dilema do filme. Seu tema central é o amor, ao mesmo tempo em que se evidenciam as dificuldades de equilibrá-lo, de agradar a todos quando é o coração o responsável por guiar as pessoas. O filme questiona as forças enraizadas das tradições contra a evidente atração entre jovens cujas culturas estavam cada vez mais próximas.

Lançado em 1971, quando o cinema estava inserido diretamente, e há algum tempo, na revolução da maneira como os temas passaram a serem tratados na década anterior, um musical como Um Violinista no Telhado, com seu tema simplista, surgia até mesmo anacrônico. No entanto, suas imagens trazem à tona a história de mudança à qual a sociedade teve de mergulhar para respirar demasiada diversidade. Falar sobre essas mudanças, ainda que pareçam tão ingênuas, cabia perfeitamente à época do lançamento. Algumas seqüências da revolução e dos ambientes rurais da Rússia antes da chegada do comunismo são tão verdadeiras e belas quanto àquelas mostradas em Doutor Jivago, de David Lean. Ainda que se adentre pouco em política, quando comparada à abordagem familiar, está claro o recado: o mundo para a comunidade judaica não estava para ser adaptável; seriam eles, na verdade, que deveriam se adaptar. Caso contrário, como mostram as cenas finais, restava a imigração.

A história do drama de uma determinada linhagem cultural segue seu curso. Antes de tomar rumos amargos, o longa-metragem de Jewison revela-se uma comédia saborosa, de recheio já observado outros vezes. A fonte de seu brilho está na razão de não sair em busca de grandes pretensões; ao apostar na simplicidade e em temas sempre constantes à vida alheia, consegue não mais que se tornar um entretenimento de primeira grandeza, um filme familiar alinhado a outros musicais que, pouco antes, ousaram tocar nas mudanças da família devido aos conflitos do mundo. E um exemplo claro desse modelo está em A Noviça Rebelde, sobre amor, família e recomeço. Divertido é pensar em um diretor trazendo abordagens tão claras a um público então ávido pela sofisticação e por temas fortes. Mas nada disso está presente em Um Violinista no Telhado.

A formação de uma cultura, embasada em séculos de perpetuação de costumes, passa a ser rompida no ambiente em que vive Tevye (Topol). Seu coração é grande o bastante para suportar certas escolhas de suas filhas, pois o amor parece respeitar os sentimentos alheios. No entanto, ele próprio ainda não havia parado para pensar em algo tão singelo e natural como o amor. Na tradição judaica da época, os casamentos eram arranjados por simples conveniências familiares e financeiras. Assim, a mulher era encaminhada para seu marido sem qualquer escolha – isso, claro, por parte dele também, tendo de conhecer a esposa no dia do casamento. É a velha história das escolhas dos mais velhos sobre os mais novos, sem espaços para questionamentos – sem espaço, igualmente, à liberdade à qual o mundo passaria a obedecer fielmente décadas depois.

Assim, o filme fala sobre liberdades individuais quando isso, nos anos 1970, era uma regra à nova geração. Tevye tem uma de suas filhas prometida ao açougueiro da cidade. Trata-se de um homem de posses, também judeu, um bom partido caso a falta de amor não atrapalhasse. Como previsto, a moça ama outro e tenta explicar isso a seu pai. Nesse primeiro conflito cultural estão claras as intenções do texto. O amor, presume a história, tem força igualmente decisiva para construir e romper uma cultura. Essa é a base da contradição que o roteiro deseja expor, como um violinista que tenta se equilibrar em um velho telhado – alguém vivo na mente em constante trabalho de Tevye. Viver nesse equilíbrio, disposto a suportar mudanças até então não observadas, é a batalha do protagonista. Como o público, ele assiste às mudanças de seu tempo ora fazendo concessões, ora desprezando as escolhas guiadas pelo coração (como é o caso de uma de suas filhas, apaixonada por um rapaz cristão).

A primeira regra quebrada na família do protagonista dá-se quando ele descobre que sua filha mais velha, Tzeitel (Rosalind Harris), está prometida por vontade própria ao alfaiate do pequeno vilarejo. Até então, é a casamenteira da cidade quem deve apontar aos pais das moças os homens disponíveis. Uma cena em particular chama a atenção. Ainda jovens demais para o casamento, as filhas mais novas de Tevye confrontam-se com dois garotos supostamente prometidos a elas. Esse arranjo, uma conveniência capaz de proporcionar, em algum caso, luxo e comodidade caso o futuro marido tenha dinheiro, é a base para a união da comunidade judaica. Ninguém ousa fazer mudanças.. Ao longo da história, as três filhas do protagonista encontram companheiros. Quando cantam, juntas, sobre o surgimento de um marido, é como se musicais do período clássico retornassem – filmes como Sete Noivas para Sete Irmãos, sobretudo na primeira parte, com o verão como possibilidade de renovar os relacionamentos.

Na segunda parte chega o inverno. A fotografia, como a direção de arte, é ainda mais rica e melhor nutrida com a falta de luz, com o sol que insiste em não aparecer. O filme ganha contornos mais sérios, até épicos, como se as pequenas estradas rurais tivessem quilômetros de largura e o gosto pela grandeza estivesse tomado o criador Jewison (famoso pelo filme ganhador do Oscar de 1967, No Calor da Noite). E, preso a essa concepção visual, como se cada centímetro recebesse o toque dos estúdios – sua idéia de perfeição da vida rural e simplista –, Um Violinista no Telhado surge como um filme, nas aparências, carente em conflitos. Na verdade, seu desenrolar sugere que o conflito está vivo desde os primeiros instantes. É a cultura, e seu rompimento, um conflito para falar da família, como de suas mudanças, na entrada do século XX. Logo viriam os soviéticos, responsável por derrubar o sistema czarista. Uma das filhas de Tevye, por sinal, apaixonou-se por um revolucionário, capaz, nas aparências, de se adaptar à cultura de qualquer povoado para sobreviver. E acredita nas pessoas do campo. Mais tarde é preso, mandado à Sibéria, local onde a jovem teria de ir para reencontrá-lo. O filme termina e muitos destinos sequer tiveram um desfecho. O violinista continua a preencher o vazio das estradas e dos ambientes rurais com sua música, uma amostra da continuidade.

Jewison sabe lidar com as doses de comédia e, principalmente, revertê-la em drama quando a realidade faz-se superior à delicadeza do mundo da música e dos sonhos. Até mesmo na seqüência do pesadelo, relatada por Tevye à sua esposa, é uma brincadeira divertida – igualmente teatral, de onde a obra saiu para se transformar em material ao cinema, às vezes real, às vezes não. O musical perdeu espaço no início dos anos 1970. À cultura hippie, ainda conseguiu ecoar com força, exatamente por falar a mesma língua que os despregados do mundo material. O musical representara sempre um sonho, uma espécie de viagem que, dessa vez, deveria ser mais sério em comparação com os trabalhos do cinema clássico – de Astaire, por exemplo –, dos anos gloriosos da indústria.

Em 1973, Jewison dirigiu Jesus Cristo Superstar, sem o brilho de Um Violinista no Telhado, porém mais original e ousado. Outros longas de sua autoria fizeram sucesso nos anos e décadas seguintes, como Justiça para Todos, A História de um Soldado e a comédia Feitiço da Lua. Porém, poucas vezes o cineasta pode contar com o polimento visual observado em Um Violinista. É, certamente, seu filme mais bonito visualmente, com resoluções criativas à história, e que poderia ser apenas um emaranhado simplista da vida dos imigrantes judeus em um mundo em mudanças. Há, também, ótimas canções, como "If I Were a Rich Man" e "Matchmaker". Outra, "Sunrise, Sunset", ocorre em um dos momentos mais bonitos, quando a filha do protagonista casa-se com o alfaiate. Todos os olhos do povoado – incluindo o do imaginário violinista – estão postos a celebrarem a união. É um dos raros momentos mágicos dos anos 1970 que dialoga com o passado, sem a crueza dos autores daquele tempo, com olhos voltados ao futuro ou – como fizera Bob Fosse com seu Cabaret um ano depois – dispostos a relerem a história sob uma nova ótica.

As misturas mostradas em Um Violinista funcionam às platéias atordoadas com a realidade observada no cinema dos "novos" diretores dos anos 1970. Por momentos, parece um filme perdido no tempo; em outro caso, quase um divertimento sem compromissos. Mas há, a partir de certo ponto, o compromisso com as mudanças sociais, com temas inseparáveis até mesmo das aldeias escondidas, dos refúgios da alma humana. É em comunidades assim que o protagonista fala sobre um violinista no telhado, local pouco comum ao artista. Tevye encara a câmera e conversa com o espectador, assim como sua consciência em outros momentos, tendo de fazer escolhas. Mesmo em diálogo direto com o poder divino, ele raciocina, parece saber o que é melhor para sua família e para a continuidade da linhagem cultural à qual está inserido. É, sem surpresas, um judeu como qualquer pessoa.




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