segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

As máscaras de Bergman - Parte 4 (Face a Face)

 

As fraquezas humanas, unidas a reencontros e novas experiências, são amostras comuns nas obras de Ingmar Bergman. O conflito com o mundo ou com o lado interior leva os personagens, sempre, a darem vazão ao significado da obra. O cinema, como bem sabe Bergman, depende da ação, mesmo que esta transcorra apenas na mente do protagonista – capaz de evidenciar parte de sua identidade a partir de seus problemas e de seu passado. Toda essa singela e resumida fórmula, como em vários de seus filmes, retorna em Face a Face, uma obra intimista a favor do amor entre humanos – portanto, otimista –, mesmo que, para mostrar isso, as pessoas tenham que freqüentar um lado podre de suas existências. São as fraquezas e o encontro com os medos passados que levarão a protagonista a pensar no amor, ao invés do tratamento da psicanálise, para se curar e retornar à vida. Ela é a psiquiatra Jenny Isaksson (Liv Ullmann), presa em suas velhas lembranças, medos e desesperos ao retornar à velha casa onde viveu parte da vida, junto aos avôs ainda vivos. E nesse ambiente, capaz de lembrar a protagonista sobre sua vida repleta de momentos difíceis junto dos pais falecidos, desenrola-se o drama proposto pelo diretor. Na verdade, Face a Face representa pedaços de outros vários filmes do cineasta, com uma beleza visual de costume, proposta pelas luzes e sombras do colaborador Sven Nykvist.

Ainda que não seja seu filme mais original, mas sim um misto de dores e fantasias, somadas às incertezas da vida e de sua própria fragilidade, Bergman despe, aos poucos, sua personagem – o que ocorre, como era de se esperar, de dentro para fora. Pouco interessa a promiscuidade e a aventura da protagonista. Bergman quer que ela viva longe das amarras da família – seja a nova, do marido e filha, ou velha, dos pais e avôs. Para tanto, mesmo cercada de personagens, em boa parte do trabalho impera a solidão. Outros seres são como fantasmas, e Ullmann, uma atriz completa, domina cada cena. Seu drama está nas pequenas coisas, como a mania, em boa parte da história, de não reconhecer seus medos. Por isso, sucumbe ao passo que começa a ver coisas, a entender que sua "pobre" vida não representa momentos bons o suficiente para serem vividos em harmonia com o resto do mundo. Somente o fato de estar viva, e de ter suportado o acúmulo de dores passadas, já seria o suficiente para ela respirar aliviada e reconhecer sua vitória. Perturbada, com várias noites em claro, Jenny opta pela morte e tenta o suicídio. Seu fracasso é também a possibilidade de voltar a se encontrar com o passado, assim como seus medos. Enquanto se recupera no hospital, na segunda parte da história, tem início sua "viagem" interior, seja ao passado ou aos encontros com os monstros que habitam o velho apartamento onde morava. Em momentos, olha para o casal idoso que vive com ela com aprovação. Depois, em suas visões, reclama do odor dos mais velhos, como se quisesse fugir do instante de "apodrecimento" do corpo. Jenny desistiu de viver e enfrentar seus demônios.

Face a Face, de 1976, fora concebido originalmente como uma série. Na versão editada, ao cinema, tem-se a impressão que o drama não chegou ao seu ápice justamente porque alguns pedaços necessários à construção foram deixados de lado. Os problemas de Jenny em alguns momentos não parecem absolutamente claros; portanto, o próprio espectador deve preencher algumas lacunas deixadas pelo texto de Bergman. Àqueles que conhecem a obra do cineasta, será mais fácil embarcar nessa "viagem" interior, pois, como a maioria dos personagens de sua obra, há descontrole e conflito. Sem qualquer ressentimento, repleto de verdade, o cineasta quer dizer, em resumo de sua filmografia, que o ser humano não suporta viver sem seus conflitos. E não há qualquer significado à vida sem as máscaras, variadas, utilizadas pelas pessoas em seus cotidianos. Jenny veste a sua máscara de boa mulher, de casamento acertado enquanto vivia com o marido e a filha em uma casa, agora vazia, visivelmente em um bairro de classe alta. Tinha tudo para ser a mulher padrão e desejável da época. Quando Face a Face inicia, Jenny ainda permanece na antiga casa. O local está vazio. Bergman e Nykvist, como de costume, saem do close, do plano fechado dos rostos, para os planos abertos, que mostram o personagem à distância, apenas se locomovendo em seu espaço. A estrutura de direção do cineasta utiliza esses moldes para primeiro revelar a pessoa, o ser que interessa ao material, como se fosse prioridade ao texto; depois vai ao ambiente, aos espaços que, junto aos personagens, compõem a beleza da representação. Bergman mostrou ao mundo que as faces são sempre importantes. A ação, assim, pode estar em apenas um olhar.

Diferente de artistas como Antonioni, que relatavam os dramas e desesperos humanos a partir do conflito entre homem e ambiente, sobre as mudanças do mundo, Bergman parece extrair sua fonte e suporte ao filme apenas do espírito humano. Nele, muitas vezes longe do ambiente, desfilam pessoas em dúvida; ou mesmo, como Jenny, à beira de um colapso que pode ser apresentado em qualquer lugar do globo. Está representada então a diferença de Ullmann, em Face a Face, quando comparada, por exemplo, a Monica Vitti de O Deserto Vermelho. A casa vazia onde Jenny é violentada por homens que invadiram o espaço representa um oceano de possibilidades ao cineasta sueco, mas não tão extenso como o interior de sua personagem principal. O espaço criado entre a vida e a morte é a lacuna que Bergman invade para mostrar ao público as verdadeiras intenções de sua personagem. São cenas arrebatadoras. Incluem o encontro de Jenny com seus pais falecidos, o diálogo e aproximação à velha mulher que aparece para ela e também a sua mistura com todos os pacientes que está tratando. Em outro momento, no final de alguns delírios – ou seria um contato com "o outro lado"? –, Jenny põe fogo no caixão que leva seu corpo. É possível ouvir sua voz, enquanto criança, suplicar pela abertura. Tem-se a impressão de que a personagem, assim, estabelece o fim de seus medos ao queimar a si própria, ou apenas as amostras personificadas em um corpo semelhante a alguém que deve ficar para trás.

Para ajudá-la a superar estes medos está em cena o também especialista e médico Tomas Jacobi (Erland Josephson). Surge, inicialmente, um flerte entre os olhares de ambos. Ela, em sua máscara, tenta resistir aos encantos dele, que depois se revela homossexual. Numa passagem, pouco antes de uma crise, Jenny diz ter desejado sexualmente o vândalo que, em sua antiga casa, tentou fazer sexo à força com ela. Revela-se, também, uma mulher frígida, sexualmente reprimida talvez pelas próprias dores do passado. Bergman, um autor com extrema convicção em relação à força da platéia em suportar o caminho desta protagonista, ainda insere, ao fim, o difícil diálogo entre mãe e filha. O tema central parece se repetir no trabalho seguinte do diretor, Sonata de Outono, sobre a relação de ódio entre parentes próximos. Face a Face demonstra outro item constante em seus filmes: a culpa que muitas pessoas carregam em vida; e algumas delas, como no caso de Jenny, adquiridas enquanto crianças. Talvez esse seja o principal acerto de Bergman em muitos casos, o de "desmascarar" suas criações aos poucos, como se a vida fosse uma caixa até então fechada e preste a explodir quando personagens como Jenny são confrontadas com o passado, com a mudança ou mesmo com seus próprios erros. Se em filmes como Quando Duas Mulheres Pecam o tempo e o isolamento servem de escape para os personagens se revelarem, aqui é o retorno a um velho apartamento o responsável por fazer germinar uma semente de loucura – ou seria de verdade? – dentro de Jenny.

Em um determinado diálogo, um amigo e médico diz à protagonista que, com o uso da psicanálise, não estavam obtendo sucesso com seus pacientes. Mas o amor, que pode ser um remédio, tão pouco será capaz de mostrar a mulher curada ao fim. Ela parece bem, equilibrada demais para quem desejou a morte. Sai de cena com um retorno ao trabalho, às regras do cotidiano, e volta a tratar de pessoas perturbadas como Maria (Kari Sylwan). Em uma seqüência que inclui as duas mulheres em cena, Jenny encara-a e diz uma das frases mais reveladoras do filme: "Você sabe que eu sei que está fingindo. De que adianta isso?". "Pobre Jenny...", repete algumas vezes Maria, como se estivesse entendendo a doutora – ou, o que é pior, prevendo o insucesso da profissional em seu tratamento e em sua relação com si própria.




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