Os animais mortos encontrados pelos personagens de A Paixão de Anna, durante essa aparente misteriosa história, indicam que algo de muito estranho permeia o vilarejo onde estes mesmos personagens dividem momentos de suas vidas. Aos mais desavisados, pode parecer uma trama de mistério. Mas tentar encontrar um culpado – ou mesmo esperar pela busca e investigação – pelas mortes dos animais é como esperar que seja explicitado, no recente A Fita Branca, quem é o responsável pelos crimes em um pequeno vilarejo alemão às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Tanto Bergman quanto Haneke não desejam apontar culpados aos crimes que circundam outras situações, estas sim mais importantes, estritamente ligadas aos personagens. Não é surpresa o fato de Bergman ter sido criado em um ambiente extremamente religioso, filho de um pastor protestante que fez surgir nele, como em muitas pessoas, o sentimento de culpa. Certamente, após atingir significante maturidade, Bergman parece ter se livrado de alguns males dogmáticos, e tudo isso pode ser visto em sua filmografia. Além das máscaras constantes dos personagens – uma ligação também clara com o teatro –, há a dúvida sobre a existência de Deus (com seu "silêncio"), a já citada culpa e a realidade que invade a assumida ficção. As criações de Bergman estão sempre em dúvida quanto às suas vidas e seus futuros, como se fosse impossível viver carregando os erros do passado.
A Paixão de Anna coloca em cena quatro personagens centrais, todos interpretados por alguns dos atores favoritos de Bergman: Max Von Sydow, Liv Ullmann, Bibi Andersson e Erland Josephson. As atenções estão voltadas, em maior parte, aos dois primeiros, cujos personagens, Andreas Winkelman e Anna Fromm, não suportam os acontecimentos – ou demônios – do passado que sempre voltam a atormentar. O filme tem início quando Andreas trabalha, sozinho, no telhado de sua casa. O espectador não sabe nada sobre ele, seu passado, ou mesmo deseja que isso seja colocado a limpo. A beleza do homem em contato com a natureza, com a visão ao céu e ao crepúsculo, faz do início um paraíso aos olhos com a ajuda da fotografia em cores de Sven Nykvist. Logo, como era de se esperar, esse paraíso será invadido pelo desespero e pela dúvida, a partir do momento em que o personagem cede espaço para outro, a bela e atormentada Anna. Ela entra em cena quando pede para usar o telefone de Andreas. A partir do momento que ouve a conversa da mulher no telefone, ele passa a fazer parte dos problemas da mesma. Tudo é ajudado quando ela esquece sua bolsa enquanto usava o telefone. Andreas vasculha o objeto e descobre uma carta enviada a Anna por outro homem, uma paixão do passado e que quase a levou à morte, também chamado Andreas. Coincidências tendem a somar algo e nem sempre responder muito na obra do mestre sueco. Com a bolsa em mãos, nada resta ao protagonista senão tentar devolvê-la. Por meio dessa ação conhece outro casal, Eva (Andersson) e Elis Vergerus (Josephson), amigos de Anna e que estão tentando ajudar a mulher a esquecer os problemas do passado, como a separação e a morte do filho em um acidente.
Podem as pessoas ocupar lacunas deixadas por outros e tentar, assim, suprimir o drama de quem está passando por problemas? Talvez seja por isso que Andreas torna-se uma tentativa de felicidade a Anna, como uma espécie de duplo ou opção à tristeza proporcionada pelo outro Andreas. A repetição de nomes, mesmo se tratando de pessoas diferentes, é proposital. Bergman ainda vai além. Investe mais uma vez na metalinguagem, quando coloca os verdadeiros atores para comentar seus personagens, fazendo eles próprios lidarem com suas máscaras. Mesmo que as críticas sociais, políticas e, portanto, externas não sejam recorrentes na obra do diretor, estando sempre em detrimento de seu interesse maior pelo ser interior, aqui fica claro que Andreas sente-se acuado frente ao estilo de vida do casal de amigos. Está visivelmente distante quando os estilos de vida são comparados, a maneira de se portar, e isso surge como um claro impedimento à relação de verdade que ele espera estabelecer com os outros. Se Anna, como avisara a carta do outro Andreas, tem tendências destrutivas, o personagem de Sydow, ex-presidiário e atormentado, também esconde um mal dentro de si, adormecido. É uma questão de tempo para que o silêncio e a rotina do homem do campo sejam quebrados, com a chegada de vizinhos sofisticados e liberais, amantes das pequenas coisas, como imagens em fotografias encaixotadas e aventuras sexuais. Tudo isso parece abalar Andreas e seu mundo tranqüilo, de contemplação à natureza. Aos poucos, após os encontros dos personagens, os animais mortos começam a aparecer.
Elis explica ao protagonista que sua esposa já teve um caso com o ex-companheiro de Anna. Logo, Eva sai em busca de Andreas. Ocorre um breve relacionamento, com sexo sem amor, mas com a clara dependência dos prazeres da carne e da fuga do cotidiano.. Andreas representa também um outro lado inexistente na indiferença e cinismo de Elis. Sob a luz vermelha do entardecer, em uma das escolhas certeiras de Nykvist na representação do consumo da relação proibida, dá-se um dos grandes momentos do filme. A luz que vem de fora acentua também a escuridão das faces, de perfil, quando filmadas de dentro para fora da casa. O inverno e o frio são esquecidos. Andersson transborda paixão enquanto uma mulher aventureira e diferente da fria Anna, apaixonada por um homem esquecido e que deseja transferir seu amor destrutivo a outro companheiro. Em suma, A Paixão de Anna mostra como é impossível manter os demônios internos em sono profundo e que a civilização, ou o aparente mundo externo, vem para fazer o passado retornar. Não há qualquer parentesco entre Andreas e seus novos vizinhos, tão pouco se conheciam; no entanto, os males internos, por serem inerentes e comuns entre alguns personagens, desenvolvem-se em qualquer lugar ou situação.. Apenas se celebra a passagem do tempo, nos sons do ponteiro do relógio, como em Gritos e Sussurros, para anunciar que a colisão entre pessoas tornará as relações insustentáveis.
A grande ironia neste filme em cores de Bergman, uma obra injustamente esquecida, é que um de seus pontos altos fora realizado em preto e branco. Se em A Hora do Lobo, sobre a convivência de um pintor com seus "vizinhos" imaginários em uma ilha – a mesma ilha que aqui, Farö, onde Bergman vivia –, o personagem central estava envolvido em um relato que poderia ser real ou não – e que remete ao cinema mudo –, aqui resta imaginar o motivo de os sonhos serem em preto e branco. Anna relata-o algum tempo após ocorrer. Surge como refugiada, que tenta manter contato com uma mulher enquanto a mesma espera a execução de alguma pessoa de sua família. São imagens poderosas, acompanhadas de uma tenção que só poderia terminar com a desgraça da mãe, que vê uma criança e um homem mortos.. Em A Paixão de Anna, o drama não escapa facilmente. Como em outros filmes do diretor, inclusive alguns anteriores, como aqueles que, com este, compõem a "trilogia de Farö" (A Hora do Lobo e Vergonha), a morte está à espreita e emana dos personagens, com dificuldades em viver em harmonia. Ao fim, Andreas é deixado na estrada, após Anna tentar repetir a tragédia responsável por tirar a vida de seu filho e por afastar seu antigo marido, pelo qual ainda sente grande paixão. O roteiro é duro e realista e, ao mesmo tempo, figura entre os mais aparentemente simplistas e concretos de Bergman. Tem-se a impressão, com exceção das cenas em que os atores comentam seus personagens, que o roteiro foi trilhado da maneira desejada. Por conseqüência, tivera também os resultados esperados, com o total controle visual da obra, incluindo a escolha final, em que a imagem fica granulada ao passo que se aproxima do protagonista, isolado e desesperado. Sua forma, aos poucos, desaparece. Resta o branco, a forma inicial, quando Andreas parecia alguém aparentemente comum em sua vida cotidiana, na execução de seu trabalho.
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2 comentários:
Olá Rafa, tudo bem? Adorei o blog de vocês!
Sou colaborador do site cinedica.com.br e gostaríamos de comentar que no dia 17 de janeiro, as 22 horas, iremos agitar um bate papo em nosso site em função da cerimônia do globo de ouro e gostaríamos muito de contar com a presença de vocês e de seus usuários.
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Dia 17 é um dia especial pois a cerimônia será mostrada ao vivo via canal TNT e não existe um lugar onde quem curte essa premiação possa debater via mensagens, os acontecimentos, ao vivo, que se seguem.
Gostaríamos de saber se você pode nos ajudar com a divulgação desta nossa iniciativa.
Nós rodamos a internet para encontrar sites interessantes e que fazem parte de nossa filosofia.
Você pode conhecer um pouco desta idéia pelo link: http://www.cinedica.com.br/filmes/cinefest.php
Desde já agradecemos e aguardamos uma resposta.
Atenciosamente, equipe CineDica.
rp@cinedica.com.br
raphaelcamacho@gmail.com
Persona, A Hora do Lobo e A Paixão de Anna são trabalhos incriveis, são filmes que incomodam, provocam e (ainda) fascinam.
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