segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

As máscaras de Bergman - Parte 2 (A Hora do Lobo)

 

Presos em uma aparente solidão, que às vezes faz surgir fantasmas e aflorar a esquizofrenia, os personagens de A Hora do Lobo, como as mulheres de Quando Duas Mulheres Pecam, estão rumo a uma simbiose que pode ser letal. O tema, na superfície, parece o mesmo nos dois filmes. Isolados numa ilha, marido e mulher vivem tormentos quando ele é "atacado" por seus demônios, ao passo que ela, grávida, também sente os reflexos das prisões internas do companheiro. Isso se dá num momento aterrorizante, quando a esposa é visitada por um aparente espírito. O espectador constata então que a vida a dois está trancafiando seus personagens e torna medo e delírio em algo pertencente a duas pessoas, e não somente ao artista. Mas A Hora do Lobo, diferente do outro trabalho citado, está intimamente ligado ao horror em sua atmosfera gótica. E mesmo que tente evidenciar seu drama e suspense, a camada interna capaz de explicá-lo está ainda mais distante. Diferente de outros filmes de Bergman, este serve ao paradoxo de que, mesmo enquanto aparentemente claro e possível de ser digerido, ainda mantém relativa distância. Parece incompreensível.

Lançado em 1968, o filme volta a mostrar alguns temas recorrentes na carreira do cineasta sueco. O maior deles é a batalha debatida internamente pelo próprio artista. Bergman muitas vezes permitia que seus medos fossem passados aos personagens de sua obra, assim como, em Fellini, o desejo de personagens de diferentes fases de sua vida também compunham, sem segredos, a face do cineasta. Porém Bergman prefere o lado interior em demasia, como se descobrir sua obra fosse o suficiente para descobrir seus medos e receios sobre o mundo. A Hora do Lobo é o terror que vive dentro de todos, o momento da morte e despedida, do consumo de algum resquício de vida dentro do artista. Se em Quando Duas Mulheres Pecam era uma atriz que conduzia o drama, tentando se ver livre de suas "máscaras" e estudando sua companheira, aqui são os demônios internos do pintor que deverão ser confrontados. Para mostrar essa batalha, Bergman, com a ajuda habitual de seu iluminador Sven Nykvist, pede ao espectador paciência nessa viagem; além disso, como um diretor de cinema – alguém habituado a mentir –, não mostrará qualquer intimidação em expor em cena personagens que sequer existem, a não ser na própria mente do artista. Esquizofrênico, Johan Borg (Max Von Sydow) passa parte de seu tempo pintando em locais afastados da civilização. Leva à ilha onde está apenas sua esposa Alma (Liv Ullmann), uma preocupada e simples mulher do campo – amostra de que o artista não quer, em sua solidão, servir-se de qualquer amostra de mulher moderna e cosmopolita. Alma (o mesmo nome da personagem de Bibi Andersson em Quando Duas Mulheres Pecam) leva em seu ventre uma extensão de sua relação com Johan, assim como as próprias obras do artista atestam o significado de vida do marido, ou seja, são as extensões de seu ser.

Uma particularidade novamente observada no trabalho de Bergman e Nykvist é a opção pelos closes e movimentos de câmera sempre acompanhando os rostos dos personagens. Quando o filme tem início, é Alma que fala diretamente ao espectador, com informações retiradas de um diário do próprio Johan, depois de seu desaparecimento, e das experiências que passaram juntos na ilha. Os fantasmas de Johan também passam a pertencer a Alma. Enquanto vivem juntos, os problemas internos dele refletem nela. Novamente, é como se o artista, diretamente ou não, consumisse a pessoa mais próxima, naqueles dias isolados à beira mar. Assim, o terror interno do protagonista passa a afetar sua vida externa. Chega, aos poucos, o sentido do colapso, que apenas pode terminar quando o artista deixar a cena. É o que ocorre. O público é avisado sobre isso desde o início, assim como é avisado de que Bergman está fazendo um filme. Sobretudo, narrando uma história aparentemente real sobre uma mulher grávida deixada a sós. Quando pensou em realizar a obra, deveria se chamar "Os Canibais", o que remete à fome dos demônios internos de Johan. E a atriz principal, Ullmann, esperava um filho do próprio Bergman na época e chegou a considerar o material "impróprio" para uma mulher em sua condição. O filme foi feito e, sem dúvida, serviu de inspiração para dezenas de obras posteriores que resolveram contar uma história de terror interior e diluída em uma atmosfera obscura. É o caso de trabalhos como Um Inverno de Sangue em Veneza, Eraserhead e até mesmo o recente Anticristo, sobre um casal isolado na mata selvagem após perder um filho pequeno.

Durante os créditos iniciais, é possível ouvir as conversas da equipe de filmagem. Ouve-se, também, o início das gravações – Bergman exclama "ação" – e o longa tem início, em silêncio, com a inesquecível aparição de Alma. Apenas sua face é capaz de transmitir o desespero da esposa abandonada, e não restam dúvidas sobre a capacidade de Ullmann em interpretar essa mulher em pedaços, que ama aos gritos e sofre em silêncio. Sua maneira de lidar com o marido, mesmo sabendo que está sendo "consumida" por seus demônios, demonstra amor. Ela aceita-o mesmo passando a imagem de um louco. Há também uma outra questão central no filme, aflorada a partir da imersão total do protagonista em seus próprios pesadelos. Um espírito mental, aparentemente uma paixão do passado, retorna a ver Johan. Chama-se Veronica Vogler (com o mesmo sobrenome da personagem de Ullmann do filme de 1966), interpretada por Ingrid Thulin, também uma das atrizes prediletas do diretor. Primeiro, o reencontro do artista com a visão da bela mulher dá-se na praia. Ela oferece seu seio e depois pede ajuda ao mesmo para retirar sua blusa. Novamente, o ser interno dos personagens de Bergman não esconde seus desejos. Paira no ar uma tensão sexual também observada em Quando Duas Mulheres Pecam, sempre com um peso menor que as buscas destes próprios personagens por uma saída contra suas ciladas mentais e internas.

Bergman soube como ninguém penetrar a fundo nos medos e desesperos humanos. Mesmo em momentos aparentemente irracionais, sem qualquer respingo de controle interno, como na seqüência em que Johan mata um garoto e joga seu corpo no mar, parece existir, sim, o peso das amostras do cineasta. Tal momento, contado à esposa pelo marido, é apresentado numa seqüência que faz lembrar algum filme mudo, como se Bergman mais uma vez voltasse aos primórdios e explicitasse a evolução por meio de suas imagens. É algo primitivo demais, mas que também guarda alguma espécie de desejo, apenas aparente, de Johan pelo garoto, sexual ou não. Vale lembrar que as amostras dos desejos nos filmes de Bergman ultrapassam o mero consumo sexual, da carne – os personagens, ao contrário, desejam "comer" seus pares, como numa fusão e compartilhamento de suas vidas, desejos e pesadelos. Alma, em A Hora do Lobo, deve arrastar os medos de seu desaparecido marido ao longo de sua vida. Como o espectador nas amostragens psicodélicas, em imagens de impacto impar, a esposa vê o labirinto o qual vive seu marido, até ser morto por seus próprios pesadelos em um pântano, a batalha interior que dá vez à fraqueza exterior. A carne de Johan sucumbe perante a dor que vem de dentro. Chega a atirar em sua esposa, com uma arma supostamente entregue por um espírito atormentador. Todos aqueles vampiros, parasitas de aparência burguesa, são representações de uma platéia que espera algo do artista, ao mesmo tempo em que mostra certo deboche e indiferença. Desejam mostrar preocupação e valor à sua arte, enquanto, na verdade, suas intenções sufocam o pintor. Ao fim, resta a imagem de um palhaço, de frente ao corvo e à morte, também a uma platéia de mortos que arrastam o artista à sua cova. Seria lembrado mais tarde em Fome de Viver. Desaparece e deixa seu diário e suas obras como a amostra de sua existência. Restam a Bergman as histórias de Alma, ainda mais importantes. Ela é o verdadeiro reflexo de Johan, assim como de parte de suas visões, medos e paixões.

 



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2 comentários:

Astréia disse...

Maravilha seu espaço, ótimas dicas sobre Bergman, e não conhecia "A hora do lobo" só Persona. Adoro a maneira como ele retrata seus filmes.

Guilherme Lombardi disse...

muito boa a dica, vou assistir