James Cameron tentou, por muito tempo, assegurar a marca de um desbravador, com gosto pela grandeza que o cinema americano por muito tempo garantiu a certos cineastas. Quando George Lucas e Steven Spielberg pareciam, nos anos 1970, o modelo de gigantismo capaz de levar as pessoas de volta ao cinema, assim como garantir o pleno prazer pela pipoca e diversão, Cameron saiu das profundezas do universo B para mostrar o que poderia fazer com mais dinheiro. De qualquer forma, seu destino, assim como passado, é semelhante ao de Lucas e Spielberg. A diferença está em sua excessiva vontade de dar um passo à frente enquanto seus textos parecem sempre abusar das mesmas fórmulas. Cameron se entregou a elas, confia nos velhos esquemas de bandidos e mocinhos, soldados maus e bons homens intencionados em salvar o planeta. Como se vê em seu novo filme, Avatar, ecoam as velhas representações de antes, a exemplo de O Segredo do Abismo, lançado há exatos 20 anos.
Quando fez esse filme, Cameron já era considerado um diretor de relativa segurança da Fox em relação a orçamentos e rentabilidade. Era, ao que parece, um dos homens poderosos da indústria, a poucos degraus de se tornar “o rei do mundo”, título proporcionado por Titanic e reiterado por seu grito na cerimônia do Oscar daquele ano, quando seu trabalho arrebatou 11 estatuetas. Nada poderia deter os esquemas de Cameron, seus velhos maneirismos de aventura e buscas do próprio homem pelo poder e pelo infinito – tema presente em Avatar e O Segredo do Abismo. No caso do filme de 1989, Cameron chegou a dizer na época que estava fazendo um 2001: Uma Odisséia no Espaço embaixo d’água. Mas sua visão mística, casada ao gosto pelo suspense e aventura, para ajudar recebe um tempero de desespero quanto aos problemas do mundo, do homem destruindo seus irmãos e desestabilizando o ciclo da vida na Terra. Em O Segredo do Abismo, os extraterrestres dão um aviso aos homens, e é impossível não pensar nele como feito aos moldes do bom e velho O Dia em que a Terra Parou. Portanto, o diretor de O Exterminador do Futuro tentou aproximar um filme sobre alienígenas no fundo do oceano à obra-prima de Kubrick, enquanto flertava com aventura e fantasia presentes, sim, na obra de Wise. Entre erros e acertos, no entanto, Cameron não fez nem uma coisa nem outra. Com carregada “seriedade”, seu longa de 1989 passa hoje despercebido, apesar de, como dizem a respeito de Avatar atualmente, ter “revolucionado” os efeitos especiais na época. Falta ao cineasta a leveza de Wise, como seu compromisso com o efeito pipoca (visto também em Lucas e Spielberg), e a genialidade de Kubrick.
Sempre de olho no futuro, em Avatar ele retorna à aventura mais fácil. Utiliza tecnologia de ponta, nunca vista antes, e produz um filme cujo texto serve apenas à forma, em barulhentas, intermináveis e nauseantes seqüências de ação. Cameron parece ter aceitado o desafio de resgatar o cinema pipoca, como fizera em Titanic e True Lies, e deixou as frases de Nietzsche de lado, uma aparente camada de inteligência. Com seu novo filme, após 12 anos sem lançar nada, o pupilo dos mestres do cinema B retorna à cena com sede de bilheteria e mais vontade do que nunca em mostrar a evolução aos olhos de um público sempre disposto a enfrentar novas “loucuras” se tratando de cinema americano. Cameron é o sentido estadunidense em pessoa, que, após tempos de crise e em plena pós-modernidade se refugiou na brincadeira visual do cinema e seus efeitos gerados pelo computador. O que antes se via em O Segredo do Abismo, ou mesmo em Aliens – atores em bons desempenhos e alienígenas como coadjuvantes –, dessa vez fora revertido. Quem domina a cena são os homens azuis, maiores que os humanos, com raízes tribais e ligação direta com a natureza. Se os alienígenas de antes vieram avisar os homens (nesse caso, o personagem de Ed Harris no filme de 1989) sobre suas besteiras, agora eles não só posam de heróis como também unirão forças para expulsar os inimigos de suas terras. Quando Cameron despontou como cineasta importante, a Guerra Fria ainda fazia certo sentido, como um mundo bipolar; dessa vez, investe nas invasões americanas e no imperialismo observado em paises do Oriente Médio. Avatar, no fundo, mostra que os seres de outro planeta devem ser deixados em paz.
A ironia central está na essência da ligação do diretor com o cinema. A ele interessa as amostragens visuais, as peças digitais em funcionamento, sempre exercendo o prazer pela grandeza. É, também, uma fatia do espírito da indústria americana. Os roteiros com os quais trabalha, por outro lado, são em grande parte repetições e amostragens das mesmas fórmulas. Avatar surge então como visualmente inovador, um olhar para o futuro que Cameron projetou às massas, mas está nitidamente ligado ao passado e ao velho modo de fazer cinema, de histórias de homens maus e dominadores contra os selvagens que vivem do outro lado de uma cerca – e que, claro, possuem algo de muito valioso. São atraentes como os selvagens de Huxley, o suficiente para fazer com que um soldado de bom coração, e do lado errado da briga, queira abraçar a causa dos oprimidos. Para isso, começa a viver como um Na’vi, nome dado aos seres do planeta Pandora. Sua mente é transportada ao corpo do alienígena, e assim passa a sondar a vida da tribo inimiga até se apaixona por uma fêmea. Como se vê, é a velha troca de lados e a busca pela consciência, como se fosse necessário sentir na pele a dor inimiga para conseguir mudar de posição. Uma velha história que Cameron já havia demonstrado em termos de classes sociais em Titanic. Sobretudo, uma história contada milhares de vezes, desgastada, que em Avatar, com suas toneladas de efeitos especiais, pretende passar despercebida ao olhar crítico.
A segunda ironia surge da utilização dos velhos clichês dos filmes de aventura como “necessários”. Pode se dizer que Guerra nas Estrelas e suas continuações beberam na fonte de mestres do passado, como Kurosawa, para tornar aceitos os pecados de Avatar. Por outro lado, o longa-metragem de Lucas, este sim um divisor de águas em 1977, não surgiu como um misto entre passado e presente e apenas se fez à base dessa junção. Tem claras qualidades e inteligência, assim como material humano que não torna a viagem ao espaço, como no caso do filme de Cameron, indigesta. Algumas pequenas partes, assim como frases e seqüências, estão longe de se tornarem uma marca, como no caso do trabalho de Lucas. É como se essas partes não funcionassem separadamente, e como se o todo fosse uma mera amostragem de megalomania que domina parte dos estúdios na atualidade. Quando Lucas fez seu maior filme, o público ainda não havia viajado ao espaço para uma aventura com tamanho realismo e com personagens tão distintos dos filmes clássicos do gênero. A somar, o público vinha numa onda de longas que, mesmo com alto padrão de qualidade, espelhavam uma América fria e distante das velhas emoções que poderiam ser encontradas ao ir ao cinema. Lucas e Spielberg, de certa forma, devolveram esse prazer.
Avatar finca seus desejos já na abertura, com a história de um soldado preso a uma cadeira de rodas. Seu irmão faleceu e ele teve de herdar a participação em um projeto, praticamente como uma cobaia. De novo, como em O Segredo do Abismo, soldados confrontam-se com especialistas em outras áreas, com olhares distintos ao planeta próximo de ser explorado. Estabelece-se contato com o desconhecido e, aos poucos, os moldes passam a fazer efeito, ao mesmo tempo em que remetem ao próprio passado do cineasta. Homens como Cameron simplesmente não conseguem se reinventar quando o assunto é aprofundamento em determinada história. Preferem, ao contrário, explorar a estética futurista, do cinema de amanhã, dominado pela falsa-realidade transmitida aos olhos pelos efeitos da tecnologia de ponta. O bom cinema, na verdade, ainda é feito de idéias, numa junção de texto, atuações e imagens, somados, depois, à montagem precisa e ao uso de uma trilha sonora acertada. Resume-se, assim, a fórmula básica. Mas o “rei do mundo” prefere deixar alguns itens em segundo plano. Tem-se a certeza, em Avatar, de que existe algo muito inovador, mas há, ainda mais, outra certeza: de que na busca por números a ousadia da história fere mais os menos acostumados com o alternativo. Assim, minimiza-se qualquer boa opção que contrarie a velha fórmula desgastada de filmes de aventura. Mesmo o transporte da mente humana ao corpo de um alien parece ser parte de outro filme. Em Matrix, como em Avatar, o protagonista necessita ser desplugado e depois plugado para descobrir quem realmente é e que tudo o que conhecia antes era uma farsa. O mundo real, aos heróis, é mais interessante; à platéia, não restam dúvidas que a inventividade de ambos filmes se concentra em suas capacidades de fazer a fantasia ser mais interessante.
O erro de Avatar, como de qualquer outro filme, não é vender uma fantasia – ou nova. Isso está na essência do cinema. O erro grave é fazer seu item original, os efeitos criados digitalmente, ganharem mais importância que o restante. Sem a substância necessária, vazio e pretensioso, termina com a clara sensação de que Cameron, mais do que nunca, continua distante de mestres como Kubrick quando o assunto é invadir o espaço e o futuro. Se as mudanças chegaram a ele na forma, resta pensar no conteúdo, para assim, talvez, fazer nascer um filme com equilíbrio, mais completo e prazeroso.
Quando fez esse filme, Cameron já era considerado um diretor de relativa segurança da Fox em relação a orçamentos e rentabilidade. Era, ao que parece, um dos homens poderosos da indústria, a poucos degraus de se tornar “o rei do mundo”, título proporcionado por Titanic e reiterado por seu grito na cerimônia do Oscar daquele ano, quando seu trabalho arrebatou 11 estatuetas. Nada poderia deter os esquemas de Cameron, seus velhos maneirismos de aventura e buscas do próprio homem pelo poder e pelo infinito – tema presente em Avatar e O Segredo do Abismo. No caso do filme de 1989, Cameron chegou a dizer na época que estava fazendo um 2001: Uma Odisséia no Espaço embaixo d’água. Mas sua visão mística, casada ao gosto pelo suspense e aventura, para ajudar recebe um tempero de desespero quanto aos problemas do mundo, do homem destruindo seus irmãos e desestabilizando o ciclo da vida na Terra. Em O Segredo do Abismo, os extraterrestres dão um aviso aos homens, e é impossível não pensar nele como feito aos moldes do bom e velho O Dia em que a Terra Parou. Portanto, o diretor de O Exterminador do Futuro tentou aproximar um filme sobre alienígenas no fundo do oceano à obra-prima de Kubrick, enquanto flertava com aventura e fantasia presentes, sim, na obra de Wise. Entre erros e acertos, no entanto, Cameron não fez nem uma coisa nem outra. Com carregada “seriedade”, seu longa de 1989 passa hoje despercebido, apesar de, como dizem a respeito de Avatar atualmente, ter “revolucionado” os efeitos especiais na época. Falta ao cineasta a leveza de Wise, como seu compromisso com o efeito pipoca (visto também em Lucas e Spielberg), e a genialidade de Kubrick.
Sempre de olho no futuro, em Avatar ele retorna à aventura mais fácil. Utiliza tecnologia de ponta, nunca vista antes, e produz um filme cujo texto serve apenas à forma, em barulhentas, intermináveis e nauseantes seqüências de ação. Cameron parece ter aceitado o desafio de resgatar o cinema pipoca, como fizera em Titanic e True Lies, e deixou as frases de Nietzsche de lado, uma aparente camada de inteligência. Com seu novo filme, após 12 anos sem lançar nada, o pupilo dos mestres do cinema B retorna à cena com sede de bilheteria e mais vontade do que nunca em mostrar a evolução aos olhos de um público sempre disposto a enfrentar novas “loucuras” se tratando de cinema americano. Cameron é o sentido estadunidense em pessoa, que, após tempos de crise e em plena pós-modernidade se refugiou na brincadeira visual do cinema e seus efeitos gerados pelo computador. O que antes se via em O Segredo do Abismo, ou mesmo em Aliens – atores em bons desempenhos e alienígenas como coadjuvantes –, dessa vez fora revertido. Quem domina a cena são os homens azuis, maiores que os humanos, com raízes tribais e ligação direta com a natureza. Se os alienígenas de antes vieram avisar os homens (nesse caso, o personagem de Ed Harris no filme de 1989) sobre suas besteiras, agora eles não só posam de heróis como também unirão forças para expulsar os inimigos de suas terras. Quando Cameron despontou como cineasta importante, a Guerra Fria ainda fazia certo sentido, como um mundo bipolar; dessa vez, investe nas invasões americanas e no imperialismo observado em paises do Oriente Médio. Avatar, no fundo, mostra que os seres de outro planeta devem ser deixados em paz.
A ironia central está na essência da ligação do diretor com o cinema. A ele interessa as amostragens visuais, as peças digitais em funcionamento, sempre exercendo o prazer pela grandeza. É, também, uma fatia do espírito da indústria americana. Os roteiros com os quais trabalha, por outro lado, são em grande parte repetições e amostragens das mesmas fórmulas. Avatar surge então como visualmente inovador, um olhar para o futuro que Cameron projetou às massas, mas está nitidamente ligado ao passado e ao velho modo de fazer cinema, de histórias de homens maus e dominadores contra os selvagens que vivem do outro lado de uma cerca – e que, claro, possuem algo de muito valioso. São atraentes como os selvagens de Huxley, o suficiente para fazer com que um soldado de bom coração, e do lado errado da briga, queira abraçar a causa dos oprimidos. Para isso, começa a viver como um Na’vi, nome dado aos seres do planeta Pandora. Sua mente é transportada ao corpo do alienígena, e assim passa a sondar a vida da tribo inimiga até se apaixona por uma fêmea. Como se vê, é a velha troca de lados e a busca pela consciência, como se fosse necessário sentir na pele a dor inimiga para conseguir mudar de posição. Uma velha história que Cameron já havia demonstrado em termos de classes sociais em Titanic. Sobretudo, uma história contada milhares de vezes, desgastada, que em Avatar, com suas toneladas de efeitos especiais, pretende passar despercebida ao olhar crítico.
A segunda ironia surge da utilização dos velhos clichês dos filmes de aventura como “necessários”. Pode se dizer que Guerra nas Estrelas e suas continuações beberam na fonte de mestres do passado, como Kurosawa, para tornar aceitos os pecados de Avatar. Por outro lado, o longa-metragem de Lucas, este sim um divisor de águas em 1977, não surgiu como um misto entre passado e presente e apenas se fez à base dessa junção. Tem claras qualidades e inteligência, assim como material humano que não torna a viagem ao espaço, como no caso do filme de Cameron, indigesta. Algumas pequenas partes, assim como frases e seqüências, estão longe de se tornarem uma marca, como no caso do trabalho de Lucas. É como se essas partes não funcionassem separadamente, e como se o todo fosse uma mera amostragem de megalomania que domina parte dos estúdios na atualidade. Quando Lucas fez seu maior filme, o público ainda não havia viajado ao espaço para uma aventura com tamanho realismo e com personagens tão distintos dos filmes clássicos do gênero. A somar, o público vinha numa onda de longas que, mesmo com alto padrão de qualidade, espelhavam uma América fria e distante das velhas emoções que poderiam ser encontradas ao ir ao cinema. Lucas e Spielberg, de certa forma, devolveram esse prazer.
Avatar finca seus desejos já na abertura, com a história de um soldado preso a uma cadeira de rodas. Seu irmão faleceu e ele teve de herdar a participação em um projeto, praticamente como uma cobaia. De novo, como em O Segredo do Abismo, soldados confrontam-se com especialistas em outras áreas, com olhares distintos ao planeta próximo de ser explorado. Estabelece-se contato com o desconhecido e, aos poucos, os moldes passam a fazer efeito, ao mesmo tempo em que remetem ao próprio passado do cineasta. Homens como Cameron simplesmente não conseguem se reinventar quando o assunto é aprofundamento em determinada história. Preferem, ao contrário, explorar a estética futurista, do cinema de amanhã, dominado pela falsa-realidade transmitida aos olhos pelos efeitos da tecnologia de ponta. O bom cinema, na verdade, ainda é feito de idéias, numa junção de texto, atuações e imagens, somados, depois, à montagem precisa e ao uso de uma trilha sonora acertada. Resume-se, assim, a fórmula básica. Mas o “rei do mundo” prefere deixar alguns itens em segundo plano. Tem-se a certeza, em Avatar, de que existe algo muito inovador, mas há, ainda mais, outra certeza: de que na busca por números a ousadia da história fere mais os menos acostumados com o alternativo. Assim, minimiza-se qualquer boa opção que contrarie a velha fórmula desgastada de filmes de aventura. Mesmo o transporte da mente humana ao corpo de um alien parece ser parte de outro filme. Em Matrix, como em Avatar, o protagonista necessita ser desplugado e depois plugado para descobrir quem realmente é e que tudo o que conhecia antes era uma farsa. O mundo real, aos heróis, é mais interessante; à platéia, não restam dúvidas que a inventividade de ambos filmes se concentra em suas capacidades de fazer a fantasia ser mais interessante.
O erro de Avatar, como de qualquer outro filme, não é vender uma fantasia – ou nova. Isso está na essência do cinema. O erro grave é fazer seu item original, os efeitos criados digitalmente, ganharem mais importância que o restante. Sem a substância necessária, vazio e pretensioso, termina com a clara sensação de que Cameron, mais do que nunca, continua distante de mestres como Kubrick quando o assunto é invadir o espaço e o futuro. Se as mudanças chegaram a ele na forma, resta pensar no conteúdo, para assim, talvez, fazer nascer um filme com equilíbrio, mais completo e prazeroso.






